O Legado de Frei Lucas

 

“Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Mateus 25:40

 

A vocação

    James Tupper teve contato com a pobreza extrema pela primeira vez em 1960. Aos 26 anos, recém-formado pela Faculdade de Medicina de Wisconsin, à época um oficial a bordo do navio quebra-gelo da Marinha dos EUA com destino à Antártida. Ele era curioso e inquieto, e descia em terra firme todas as vezes que o navio atracava ao longo da costa ocidental da América do Sul, visitando hospitais e os lugares empobrecidos das cidades. Nestes locais, ele viu o sofrimento que jamais esqueceria. Existiam famílias morando em barracas construídas em ilhas de lixo e com esgoto a céu aberto. Crianças com barrigas inchadas, ficavam sentadas e apáticas em frente de casas feitas de barro e pau, sem forças para brincar. Os adultos tossiam e cuspiam sangue.

    Depois de cumprir suas obrigações militares, Dr. Tupper iniciou sua residência de cirurgia no Centro de Medicina da Universidade de Chicago. Ele amava a medicina, porém o sofrimento que ele testemunhou na América do Sul continuou a persegui-lo e, em 1963, desistiu de uma carreira promissora como cirurgião, em prol de sua vocação sacerdotal. Desta forma, decidiu ser um médico-missionário no Brasil. "Acho que este era o lugar onde Deus queria que eu estivesse ", escreveu à sua mãe, antes de entrar para a ordem religiosa franciscana.

Durante a preparação para o sacerdócio, Tupper estudou latim e grego no Seminário São José, localizado em Oak Brook, no estado de Illinois. Ele concluiu o curso universitário em Filosofia, e ensinou primeiros socorros a voluntários do Corpo da Paz, em troca de curso intensivo de Português. Em 1968, chegou a Salvador, Bahia, para estudar Teologia. Tratava os enfermos nas favelas com pomadas e comprimidos.

 

Mortes que poderiam ser evitadas

    No período de setembro a dezembro de 1969, tendo completado seus exames de exercer a medicina no médico no Brasil, Dr. Tupper visitou Santarém, uma cidade portuária onde os rios Tapajós e Amazonas se encontram em uma área carente, localizada no coração da floresta amazônica . Neste período, viajou de comunidade em comunidade de barco, bicicleta, moto, jipe ​​e a pé. Descobriu que, na Amazônia,  doenças como queimaduras, picadas de cobra, apendicite e outras emergências médicas que poderiam ser tratadas facilmente na cidade eram, muitas vezes, fatais. Além do mais, havia menos de uma dúzia de médicos e dentistas concentrados em apenas três cidades, tratando de 250 mil pessoas que viviam em grandes áreas, que na maioria das vezes, eram isoladas.

      Ele trabalhava até 14 horas por dia. Tupper ficou consternado com a quantidade de sofrimento que o cercava: crianças com pés tortos que caminhavam com as laterais de seus tornozelos, deformações devido à má cicatrização dos ossos, lábios leporinos tão deformados que causavam mudez e boa parte da população jovem não tinha dentes.

      As condições sanitárias eram deploráveis. Os esgotos contaminavam os lençóis freáticos que abasteciam o sistema de fornecimento de água. As crianças estavam desidratadas e em um estágio avançado de infecções intestinais causadas por vermes, ao ponto de não conseguirem caminhar ou até mesmo sentar.

   Tupper se encontrou isolado, sem os devidos recursos de um hospital com ajuda especializada, medicamentos, instalações laboratoriais ou oxigênio. Ele achava que poderia fazer muito mais do que simplesmente assistir bebês morrendo nos braços de suas mães. Junto a ele, carregava uma Bíblia e um estetoscópio.  Como médico, quando nada mais cabia fazer para salvar vidas, restava-lhe a Tupper, apenas, executar a extrema-unção aos filhos e confortar os pais. Para solucionar estes graves problemas de saúde, ele teria  de responder duas perguntas; O que fazer? Por onde começar?

     James Tupper encontrou as respostas na cidade de Monte Alegre, na margem norte do rio Amazonas. Ele foi convidado para a casa de uma humilde mulher, que morava numa vila vizinha, que estava chorando histericamente. Seus cinco filhos estavam com coqueluche e, dois dias antes, o caçula, uma criança, tinha morrido. Ela ficou sabendo que um médico estava por perto e decidiu encarar a floresta com os filhos pequenos com o objetivo de encontrá-lo. Durante o caminho, mais um dos seus filhos veio a falecer. Tupper ficou inconformado, pois sabia que coqueluche era uma doença grave, mas raramente fatal. Ao examinar as crianças, ele descobriu a razão. Além de coqueluche, eles também tiveram sarampo, pneumonia, malária e três tipos de infecções por vermes, que enfraqueceu o sistema imunológico.

      Ele conseguiu salvar dois dos filhos, mas, infelizmente, porém um veio a falecer devido a tosse violenta e insuficiência respiratória. A morte comoveu Tupper. Uma mãe perdeu três filhos que poderiam ser salvos com apenas três inoculações que custariam menos do que 10 centavos americanos, na época.

 

Não está mais sozinho

    As mortes desnecessárias das crianças perseguiam Tupper no seu retorno para casa, logo após ser ordenado sacerdote. Na cerimônia no dia 7 de dezembro de 1969, ele escolheu ‘Lucas’’ como seu nome religioso. São Lucas, o Evangelista é, segundo, a tradição, o autor do Evangelho de São Lucas e dos Atos dos Apóstolos - o terceiro e quinto livros do Novo Testamento. É o santo padroeiro dos médicos. Chamado por Paulo de "O Médico Amado" (Colossenses 4:14), pode ter sido um dos cristãos do primeiro século que conviveu pessoalmente com os doze apóstolos.

     Para captação de recursos e apoio logístico para sua batalha contra a miséria e a morte, "Frei Lucas" apelou à sua própria família e amigos. Sua irmã prometeu doar metade do salário que recebia como advogada. O irmão mais velho, John, um pároco em Michigan, pediu encarecidamente para que os membros da congregação compartilhassem suas bênçãos.

     Em Phoenix (EUA), o irmão de Frei Lucas, Jerry, também um advogado, oficializou a  campanha de Lucas, criando a organização sem fins lucrativos “Esperança Inc.”. Outros doaram dinheiro, serviços e suprimentos médicos. Quando Luke voltou a Santarém, em abril de 1970, já não estava sozinho em sua luta.

    Com dois adolescentes brasileiros que ele treinou para ajudá-lo como enfermeiros, lançou um programa de imunização. A equipe viajou de lancha de uma comunidade para outra. Dentro de cinco meses, 5.000 pessoas foram imunizadas.

       O Oxford Committee for Famine Relief disponibilizou recursos para o programa e a Catholic Medical Mission Board (http://www.cmmb.org/ ) enviou vacinas e máquinas injetoras automáticas, o que permitiu um operador inocular mais pacientes em uma hora do que uma equipe médica com seringas e agulhas em um dia. Nos próximos dois anos, mais de 71 mil habitantes da Amazônia seriam imunizados contra as sete doenças principais.

     Em Setembro de 1971, Lucas foi acompanhado pela Irmã Regina Wachowski, uma freira franciscana e técnica em radiologia de Chicago que tinha tido experiência em raio X e cirurgia. Dentro de semanas, a Irmã Regina entrou na floresta com sua própria equipe médica. Como Lucas, ela carregava uma rede e um mosquiteiro, vivendo e comendo com pacientes e moradores locais que ela ajudou.

      Em suas caminhadas pelas comunidades da floresta, Lucas encontrou-se com um número impressionante de crianças e adultos que precisavam desesperadamente de cuidados relacionados `a higiene bucal. A maioria nunca tinha visto uma escova de dente, muito menos um dentista. Muitos já haviam perdido todos os seus dentes. Depois de trabalhar o dia inteiro como médico, Lucas agora extraia dentes podres, à noite, com lanterna ou lamparinas de querosene.

     Como o programa progrediu de comunidade em comunidade, Lucas adentrou cada vez mais na floresta, onde a distância e o isolamento complicava os problemas médicos mais simples. Se estas pessoas não poderiam chegar a um hospital, ele pensou,  ‘’nós vamos ter que levar um hospital até eles``.

       Ele relatou sua preocupação para a sede da Esperança Inc., em Phoenix, nos Estados Unidos. Em dezembro de 1971 o conselho de administração comprou uma balsa seminova por US $ 15.000 (quinze mil dólares), a ser convertida em um hospital flutuante.

      A paixão e intensidade de Lucas inspiraram um número crescente de americanos para sua causa. Win Stewart, um pastor de uma igreja Batista em Phoenix, renunciou a seu cargo na pastoral para dedicar-se à Esperança Inc. em tempo integral.

      Em San Diego, um engenheiro largou o emprego para supervisionar a conversão do barco. Reservistas navais e civis trabalharam aos fins de semana e à noite para instalar o estimado de $ 50.000 (cinquenta mil dólares) em equipamentos médicos doados ao barco hospital.

 

“Esperança” para os desesperançados

     Em junho de 1972, Frei Lucas recebeu a visita de Bill Dolan, um jovem franciscano estudante de medicina que conheceu em Illinois. Bill queria ver o que seria trabalhar como um médico-missionário. E ele rapidamente descobriu. Lucas o levou para uma comunidade na floresta, onde,  três horas mais tarde, estavam juntos, e trabalharam até o anoitecer.

        Dolan ficou maravilhado com a coragem e dureza do povo da Amazônia. Não era incomum para os pais viajarem dias de canoa para obter ajuda aos filhos. "Foi o suficiente para fazer seu coração chorar", diz Dolan. "Eles são os verdadeiros heróis."

         Em outubro 1972, trabalhadores voluntários tinham ajudado Lucas e Irmã Regina a construir a ‘’Clínica dos Pobres``, em Santarém. A clínica logo se tornou um símbolo de esperança para aqueles que tinham aprendido a viver desesperançados.

       Uma vez que Lucas foi chamado para um casebre onde um menino de nove anos chamado “lvanildo” estava em coma, rodeado por parentes aguardavam sua morte. Doente há três dias, queixava-se de fortes dores de cabeça e vômitos. Após ficar inconsciente e espumando pela boca, o pai do jovem já havia comprado um caixão. Lucas, reconhecendo os sintomas de meningite, pegou o jovem febril e levou-o para a clínica. Enquanto Irmã Regina lutou para conter a febre do menino com álcool e gelo, uma sonda foi inserida na garganta do rapaz e medicamentos foram administrados direto no estômago. Lucas chamou, pelo rádio amador, um pediatra em Los Angeles para aconselhá-lo sobre o tratamento médico. Durante 48 horas, Irmã Regina e Lucas observaram o garoto, banhando-o em álcool para evitar infecções devido a extirpação de dezenas de vermes de seu corpo.

 

Ele viveu

        "Eu tenho duas mães", o jovem disse à Irmã Regina depois que ele havia se recuperado. "Minha mãe em casa e você."

Em 10 de Maio de 1974, o barco hospital, batizado de “Esperança”, chegou à foz do Amazonas. Na parte inferior do barco de 65 pés foram instalados a sala de operação, clínica e laboratório. Já na superior estavam os alojamentos para a tripulação e para a equipe médica.

       Os cirurgiões começaram a chegar após alguns meses da viagem inaugural do Barco Hospital “Esperança”. O primeiro foi Ed Falces, um cirurgião plástico de San Francisco, que trouxe dois enfermeiros, um anestesista e um brasileiro residente em cirurgia plástica para ajudá-lo. Durante três semanas a equipe cirúrgica operou a bordo do barco todos os dias, tratando 41 doenças, incluindo lábios leporinos, pés tortos e membros retorcidos. O barco hospital “Esperança” agora tinha seu deck superior coberto com redes de pacientes em recuperação, era um navio-hospital.

        Como os voluntários trabalhavam em seus "pequenos milagres", Lucas tentou encontrar novos caminhos para chegar aos mais necessitados. Ele sabia que o “Esperança” poderia ter um cirurgião em tempo integral, e queria envolver mais brasileiros em seus programas de assistência médica. Em 1975 um voluntário americano chegou para ajudá-lo e fez seus dois objetivos possíveis.

        Dr. Harry Owens tinha trabalhado com os esquimós no Alasca e servido no Brasil no navio-hospital “SS Hope”, e neste período aprendeu o português. Tinha algumas ideias sobre a formação de brasileiros. Owens concordou em ficar por dois anos. Diante disto, convencido de que ele estava deixando “Esperança” em boas mãos, em 1976, Frei Lucas começou uma residência na Ohio State University Hospital para se tornar um cirurgião-oftalmologista.

     No final do ano, Dr. Owens firmou um convênio entre “Esperança” e a Universidade Federal do Pará para intensificar os cuidados de saúde na região amazônica. Voluntários do “Esperança” iriam ensinar brasileiros com formação em medicina, enfermagem e estudantes de nutrição, motivando-os a prática da interiorização. Em 1977, o “Esperança” lançou um programa para treinar os moradores brasileiros a se tornarem paramédicos. Após formados, esses ficariam com a missão de prestar assistência permanente na sua comunidade quando o ‘’ Esperança`` seguisse para outra comunidade.

       Lucas usou seu tempo livre no estado de Ohio, EUA, para incentivar os estudantes de medicina a doarem serviços ao mundo dos pobres. "Vocês têm uma carreira pela frente, que provavelmente abrangerá 30 anos", afirmou Lucas para os estudantes. "Estou pedindo a vocês darem apenas um mês para seus irmãos e irmãs mais humildes."

       Após 10 anos de doação aos seus irmãos e irmãs na Amazônia, em 18 de setembro de 1978, Frei Lucas morreu aos 45 anos no Hospital de Columbus vítima de um acidente de trânsito.

 

 

Por David L. Fortney

Tradução: Jullyana Franco e Micah Gregory

Revisão: Júlio César Pedrosa